Filosofia da Mente e da Tecnologia
A pergunta que organiza tudo
“Máquinas pensam?” Alan Turing fez essa pergunta em 1950, antes de existir um único computador pessoal. Setenta e cinco anos depois, você conversa com uma máquina que parece pensar todo dia. Esta disciplina é sobre levar a pergunta a sério.
Por que um técnico ou engenheiro estuda filosofia?
Porque quem constrói e usa tecnologia toma decisões filosóficas o tempo todo, com ou sem perceber. Quando você diz que uma IA “entende”, “sabe” ou “alucina”, está usando conceitos que filósofos passaram séculos afiando. Saber pensar com clareza sobre isso é uma vantagem profissional concreta: você revisa melhor o que a IA produz, argumenta melhor as suas decisões e não cai em hype nem em pânico.
O que esta disciplina não é
Não é história da filosofia decorada, nem opinião solta de internet. É filosofia analítica aplicada à tecnologia: argumentos claros, distinções precisas e a coragem de discordar com fundamento. O eixo é a IA, porque é o tema onde mente, conhecimento, linguagem e ética se encontram hoje.
Disciplina dinâmica
Não dá tempo de ver tudo. Escolhemos juntos a trilha conforme o interesse da turma. As quatro partes abaixo são independentes o suficiente para entrar em qualquer ordem.
📚 Conteúdo da Disciplina
Parte 1: Máquinas pensam? (Filosofia da Mente)
O coração da disciplina. Se uma máquina se comporta como se pensasse, ela pensa de verdade? O que é “pensar”, afinal?
- O Teste de Turing e o Quarto Chinês - O experimento mental mais famoso da filosofia da IA: a diferença entre processar símbolos e entender de verdade (Turing, 1950; Searle, 1980)
- Funcionalismo e a Postura Intencional - A resposta de Dennett a Searle: talvez “entender” seja só uma questão de função e de ponto de vista (Dennett, 1987)
- O Problema Difícil da Consciência - Por que sentir é diferente de processar, e por que isso é o osso mais duro de roer (Chalmers, 1995)
Parte 2: O que a IA sabe? (Epistemologia)
A IA “sabe” alguma coisa, ou só prevê a próxima palavra? O que separa informação de ruído, e verdade de invenção convincente?
- O que a IA sabe - Informação, verdade e alucinação - Conhecimento, informação e por que um modelo de linguagem pode estar confiante e errado ao mesmo tempo (Floridi; o debate sobre “bullshit” de máquina)
Parte 3: Pensar bem (Pensamento Crítico e Argumentação)
A competência transversal mais valiosa: construir um bom argumento, diagnosticar um argumento alheio e não se deixar enganar. Vale para a vida, para o trabalho e para revisar o que a IA te entrega.
- Anatomia de um Argumento - O que é um argumento de verdade (não é briga), a diferença entre validade e verdade, e o catálogo das falácias mais comuns (Weston)
Parte 4: Ética da Tecnologia
Quem é responsável quando a IA erra? Persona digital pode enganar? Automação e vigilância são neutras?
- Ética da IA - Responsabilidade e Agência Moral - Quando ninguém escreveu a regra que causou o dano, de quem é a culpa? (Jonas, 1979; Matthias, 2004)
- Ética da IA - Poder, Vigilância e Automação - A tecnologia carrega valores embutidos (Zuboff, 2019; Winner, 1980)
🧰 Como vamos trabalhar
Método
Cada aula parte de um caso concreto de IA que você já conhece (ChatGPT, recomendação de vídeos, carro autônomo) e sobe daí para o conceito. Discussão vale mais que slide. Discordar com argumento é o objetivo, não o erro.
| Habilidade que você leva | Onde se usa no mundo real |
|---|---|
| Distinguir simular de entender | Avaliar até onde confiar numa IA |
| Separar validade de verdade | Revisar relatório, código ou laudo gerado por IA |
| Identificar falácias | Debate, negociação, leitura de notícia |
| Mapear um argumento | Defender um projeto, escrever um TCC |
| Pensar responsabilidade | Projetar sistema que afeta pessoas |
Leituras de referência
A bibliografia completa, com níveis de confiabilidade, fica em cada aula. As fontes-âncora da disciplina são Alan Turing (1950), John Searle (1980), Daniel Dennett (1987), David Chalmers (1995), Luciano Floridi (2010), Anthony Weston (1987), Hans Jonas (1979) e Shoshana Zuboff (2019).